O Zimbábue está a protagonizar uma das maiores reviravoltas políticas e económicas da história recente africana.
Vinte e cinco anos depois de ter expulsado fazendeiros brancos e confiscado milhares de hectares durante a polémica reforma agrária de Robert Mugabe, o governo de Emmerson Mnangagwa decidiu agora devolver fazendas a investidores estrangeiros e pagar indemnizações milionárias aos antigos proprietários.
A decisão reacendeu um intenso debate dentro e fora do continente: afinal, trata-se de pragmatismo económico ou de rendição política ao Ocidente.
O pacote anunciado pelo governo inclui a devolução de 67 fazendas protegidas por acordos internacionais de investimento e o pagamento de cerca de 146 milhões de dólares a cidadãos e empresas estrangeiras, sobretudo britânicos e europeus que perderam propriedades durante a redistribuição de terras iniciada no início dos anos 2000.
Na época, Robert Mugabe defendia a reforma agrária como uma “correcção histórica” contra o domínio colonial britânico.
Milhares de agricultores brancos foram expulsos, enquanto terras agrícolas passaram para as mãos de veteranos de guerra e cidadãos negros zimbabueanos. O processo foi celebrado por movimentos pan-africanistas, mas também mergulhou o País numa crise económica sem precedentes.
O Zimbábue deixou de ser conhecido como o “celeiro de África” e passou a enfrentar hiperinflação, escassez de alimentos, desemprego extremo e isolamento financeiro internacional.
As sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia agravaram ainda mais o colapso económico.
Agora, Mnangagwa tenta reconstruir pontes com o Ocidente e convencer instituições financeiras internacionais a reabrirem as portas ao país.
O governo acredita que resolver o conflito fundiário é essencial para desbloquear créditos do FMI e do Banco Mundial, além de restaurar a confiança de investidores estrangeiros.
Sectores nacionalistas acusam o governo de “vender a soberania” conquistada após décadas de luta anti-colonial. Nas redes sociais e em círculos políticos africanos, muitos questionam como um País que expulsou colonos em nome da justiça histórica acabou, décadas depois, a devolver terras e a pagar compensações milionárias aos descendentes do sistema colonial. Clique e acompanha mais...
